A tela do monitor ainda refletia o vazio do VS Code, aquele cursor piscando me encarando. Já era tarde. A luz da mesa, a única acesa no andar, criava sombras longas, quase dramáticas, nos meus copos de café vazios. É nessas horas, no silêncio que a gente finalmente consegue pensar direito. Ou, pelo menos, tentar.
Hoje, foi o dia do “feedback” sobre aquele projeto de alto impacto. O projeto que me tirou umas boas horas de sono, que eu “mergulhei fundo” – termo corporativo que odeio, mas que, vá lá, descreve bem o que fiz. Aquele em que eu, na minha quietude de sempre, fui o epicentro de tudo. E o reconhecimento? Ah, o reconhecimento.
É engraçado como a gente, eu digo, os que preferem o barulho do teclado ao da própria voz, navega nessas águas. A imagem que a gente projeta, muitas vezes, é de quem está “apenas fazendo o trabalho”. E sim, é isso que a gente faz. Mas por trás do “apenas”, tem um universo. Tem a refatoração pensada por dias, a solução que veio depois de horas de depuração silenciosa, o deploy que correu liso porque cada detalhe foi checado e rechecado. E, claro, a comunicação. Ou a falta dela.
Lembro de uma reunião, algumas semanas atrás, sobre os requisitos daquele módulo de integração. Sala cheia. O pessoal do comercial, o do produto, o gerente. Todo mundo falando, sobrepondo ideias, e eu ali, com a arquitetura já na cabeça, os pontos críticos mapeados, os riscos calculados. Mas esperando a “minha vez”. Que nunca chega, né? Ou quando chega, o bonde já passou, a pauta já virou. Aquele silêncio que para mim é organização de pensamento, para outros é… o quê? Desinteresse? Falta de opinião? É sempre uma linha tênue, um bug silencioso na comunicação.
Aí a gente tenta a alternativa: o e-mail, o Slack. “Segue a análise detalhada dos pontos X, Y e Z, com as possíveis abordagens e as implicações de cada uma.” Um documento que levou horas pra ser montado, com diagramas, referências à * codebase*. A resposta? “Ok, parece bom.” Parece bom? Horas de trabalho resumidas em um “parece bom”. É como fazer um commit gigante, cheio de funcionalidades novas e melhorias de performance, e o code reviewer só aprovar sem um comentário, sem uma pergunta. Dá um vazio. Uma sensação de que o impacto não foi compreendido, ou, pior, nem sequer notado.
E o projeto em si, esse último, foi um deploy crítico. O tipo de coisa que, se falhasse, ia parar a operação inteira. A pressão era grande. Tive que falar com gente de outras áreas, articular dependências, correr atrás de aprovações. Coisas que, pra um introvertido como eu, são um esforço hercúleo. Não é que eu não consiga, eu consigo. Mas não é natural. Cada interação é um pequeno overhead mental.
Teve um momento em que o gerente veio me perguntar sobre o andamento. Eu, na minha, respondi com fatos, com o status do backlog, os testes em andamento. Ele me olhou e disse: “Você parece tranquilo. Tem certeza que não tem nada pegando fogo?” E eu: “Não, está tudo sob controle. Os planos de mitigação estão prontos, caso algo dê errado.” Ele balançou a cabeça, talvez esperando um pouco mais de… drama? De exaltação? Acho que a minha calma excessiva, a minha ausência de alarde, é interpretada como falta de emoção. Como se o impacto não estivesse me afetando. Mas por dentro, a engrenagem estava girando a mil.
É que a gente lida com as coisas de forma diferente. Enquanto alguns extravasam, falam alto, gesticulam, a gente processa. A solução de um problema complexo não vem de uma explosão de ideias na frente de todo mundo. Ela vem de horas pensando, simulando cenários na cabeça, rabiscando no caderno, ou olhando para o teto às três da manhã. E quando a gente apresenta a solução, ela já está lapidada, pronta. Parece fácil, mas só parece.
O reconhecimento, no fim das contas, veio. Não foi um grande discurso, nem uma festa. Foi uma menção rápida no all-hands meeting trimestral. Meu nome, o nome do projeto. Um “bom trabalho” por e-mail do meu gerente. E uma sensação de alívio. Mas um alívio misturado com essa reflexão que agora transcrevo. O roteiro para o introvertido liderar um projeto de alto impacto e obter reconhecimento não é sobre mudar quem você é. É sobre entender o terreno, calibrar a comunicação, e talvez, só talvez, deixar um pouco do seu processo interno vazar para fora, sem se descaracterizar.
Não é sobre se transformar em alguém extrovertido. É sobre encontrar a sua própria frequência, a sua forma de se fazer ouvir em um mundo que muitas vezes confunde silêncio com ausência. É como um bug intermitente: ele está lá, incomodando, mas a manifestação nem sempre é óbvia. A gente aprende a lidar, a contornar. Mas a questão de como esses pequenos ruídos são percebidos, e como o impacto real do nosso trabalho se traduz em reconhecimento, ainda ecoa. É uma refatoração constante na minha própria cabeça.
Essa busca por sincronia entre o que se faz e o que se percebe do lado de fora, parece ser um daqueles problemas persistentes. Não tem uma solução única, um patch definitivo. É mais como um código legado que a gente vai ajustando, linha por linha, na esperança de um dia ter algo mais limpo, mais eficiente. E a cada novo projeto, a cada novo “feedback”, a gente recalcula a rota, sempre com a tela vazia nos convidando a organizar os pensamentos.




