Ultimamente, as reuniões têm sido um buraco negro, sugando o tempo e a pouca energia que me resta para o trabalho de verdade. Hoje, por exemplo, comecei o dia com a Daily, que durou mais do que devia. Depois, emendei em uma reunião de planejamento que se arrastou por quase duas horas. Enquanto a discussão ia e voltava sobre pautas que pareciam se repetir do dia anterior, eu me pegava olhando para o backlog, para as pendências que não paravam de crescer. O silêncio, para mim, é onde o pensamento realmente acontece, onde as peças se encaixam. Mas, numa sala cheia de gente falando, mesmo que a maioria esteja só repetindo o óbvio, o meu silêncio é interpretado como sei lá o quê. Desinteresse? Falta de engajamento? É sempre a mesma coisa.
A verdade é que, para quem é mais calado, a dinâmica é outra. As ideias surgem, mas não são gritadas na hora. Elas precisam de um tempo para serem processadas, para ganhar forma. E, quando finalmente estão prontas para sair, a pauta já mudou, a reunião já acabou, ou a janela de oportunidade simplesmente passou. Fico pensando em quantas soluções simples ou observações cruciais se perdem porque não se encaixam no ritmo barulhento do “quem fala mais tem razão”. Parece um bug silencioso, sabe? Aquele que não causa um crash imediato, mas corrói o sistema por dentro, dia após dia.
O paradoxo é que, como líder técnico, esperam de mim uma postura de comando, de proatividade, de “influência”. Mas a minha influência, a que eu realmente sinto que funciona, é a do código bem escrito, da arquitetura sólida, da refatoração que faz o sistema respirar. É nos pull requests, nos comentários pontuais, na documentação clara, que eu me expresso melhor. Ali, minhas ideias são concretas, verificáveis. Uma linha de código errada salta aos olhos. Uma ideia abstrata em uma reunião pode flutuar indefinidamente.
E o feedback? Ah, o feedback. Recebo com uma seriedade quase assustadora. Um “você está muito quieto” me faz revisitar cada interação do dia. Será que pareci distante? Será que eu deveria ter falado mais naquela discussão sobre a nova feature? Mas aí, o que eu deveria ter dito? Algo para preencher o silêncio? Para mostrar que estou “engajado”? É uma performance que eu sinto que nunca consigo dominar completamente. Me sinto como um script rodando em background, com a interface do usuário travada, e o pessoal achando que o programa não está funcionando.
Às vezes, a gente até tenta se forçar a ser o que não é. Chegar na Daily e já ter uma frase de impacto pronta, ou interromper alguém para colocar um ponto. Mas soa artificial. Para mim, soa como um deploy mal planejado, que a gente sabe que vai dar problema em produção. É um desgaste desnecessário. O cansaço não vem só do excesso de trabalho, mas da constante autoavaliação, da tentativa de decifrar as expectativas não ditas. É como se eu precisasse de um checklist mental, só para garantir que estou “aparentemente” participando.
E não é que eu não me importe. Pelo contrário. Cada linha de código importa, cada decisão de arquitetura tem um peso. O silêncio, para mim, é um sinal de foco, de imersão. É onde eu desmonto o problema, onde eu vejo as interconexões. Quando estou calado numa reunião, geralmente estou pensando em como resolver o problema que estão descrevendo, ou em como a solução proposta vai impactar o código que já existe. Não estou em outro planeta. Estou só em outra frequência.
A ambiguidade das mensagens também é um caso à parte. “Precisamos de mais comunicação”, dizem. Mas o que significa “mais comunicação” para quem já passa o dia todo resolvendo problemas de código, que são, por natureza, bastante literais? Significa mais reuniões? Mais mensagens no Slack sem um objetivo claro? Ou significa uma comunicação que seja mais eficaz, mais direta, menos ruído? Acho que estamos falando de coisas diferentes. É como tentar debugar um problema de performance trocando o driver de vídeo. Não tem a ver.
Olho para o meu monitor agora, com algumas linhas de código abertas. Aqui, as regras são claras. Se funciona, funciona. Se não funciona, o compilador me avisa, ou o teste falha. Não tem espaço para interpretações erradas do meu silêncio ou da minha forma de processar as coisas. O código não se importa se sou introvertido ou extrovertido. Ele só se importa com a lógica. E isso, de alguma forma, me traz um certo alívio.
Talvez o segredo não seja tentar mudar a si mesmo, mas entender como operar melhor no ambiente que se tem. Como um sistema que precisa de um tune-up, não de uma reescrita completa. É sobre encontrar as alavancas certas, os pontos de impacto, mesmo que sejam pequenos e discretos. É sobre entender que o impacto nem sempre faz barulho. Às vezes, o maior impacto é uma falha silenciosa que a gente evita, ou um sistema que simplesmente funciona, sem alardes.
Essa constante busca por uma forma de me encaixar, de ser “o líder técnico” que se espera, me faz pensar em outros colegas que devem passar pela mesma coisa. Gente que entrega, mas que talvez não seja a voz mais alta na sala. Gente que prefere o teclado ao microfone. É um ciclo que se repete. A gente vive num mundo que valoriza a exposição, o discurso, a rapidez da resposta. E eu? Eu prefiro a precisão da pausa.
É um pensamento que volta e meia me pega, meio que sem solução, um loop que ainda não consegui otimizar. Acho que ainda não cheguei a um ponto onde tudo faz sentido, onde a performance e a presença se alinham perfeitamente para quem processa o mundo de dentro para fora.
Parece que essa conversa sobre liderança e introversão sempre me deixa com mais perguntas do que respostas. É um incômodo sutil, mas persistente, como um daqueles warnings que aparecem no log, que a gente sabe que não vai derrubar o sistema agora, mas que talvez precise de atenção em algum momento.




