Outro dia, a daily esticou 40 minutos. De novo. O de sempre: um silêncio depois da pergunta, e aí alguém tentava explicar um problema que, na verdade, era só uma ambiguidade na tarefa. O problema não estava no código. Estava na descrição, na cabeça de quem leu, na cabeça de quem escreveu… e em como a gente não consegue falar sobre o que está errado sem que pareça um ataque pessoal. No final, a solução foi reescrever três linhas no backlog. Um custo de 40 minutos de 8 pessoas. Se fosse um bug, a gente saberia onde caçar. Mas a falha, essa falha silenciosa, a gente deixa passar.
Fico pensando nisso, no custo invisível. A empresa, de tempos em tempos, paga uns cursos de soft skills. Comunicação Não-Violenta, Liderança de Equipes Híbridas, coisas assim. Eu nunca pego. Olho a ementa: “Aprenda a ouvir ativamente”, “Crie rapport em 5 minutos”. Parece que estou lendo o manual de um robô que ainda precisa de refatoração para interagir com humanos. E, sendo bem sincero, a primeira coisa que passa na minha cabeça é o preço. Não o preço que a empresa paga, mas o meu: o tempo.
Tempo que eu podia estar isolado, com fone, resolvendo um deploy crítico. Tempo que eu uso para refatorar um trecho de código que, eu sei, vai estourar na produção daqui a seis meses se eu não arrumar. O que vale mais, o benefício de conseguir falar “essa issue está mal escrita” de um jeito que a outra pessoa absorva sem ficar na defensiva, ou o benefício de ter um sistema que não vai cair no feriado?
O Custo do Silêncio Interpretado
Quando a gente é mais técnico, a régua é clara. Se o script rodou, está certo. Se deu timeout, está errado. Na interação, o timeout é o silêncio. Eu fico quieto, processando, juntando as peças. É a minha forma de debugar a conversa. Mas para quem está do outro lado, especialmente quem não é de TI e vive nesse universo de interações constantes, meu silêncio é interpretado como desinteresse, ou pior, como desaprovação. É uma falha de comunicação tão custosa quanto um erro de sintaxe.
Uma vez, no code review, apontei uma vulnerabilidade. Fui direto, sem firula, como eu faria num comentário de pull request. A resposta não foi “Obrigado, vou corrigir”. Foi uma justificativa longa, quase uma defesa de tese de doutorado. O código estava errado, mas a prioridade da pessoa passou a ser defender a intenção dela, não a implementação. Gastei mais 20 minutos tentando reverter o dano. Eu só queria que o sistema ficasse mais seguro. Eu não estava avaliando o caráter dela.
Eu sei, cursos de soft skills dizem que ensinam a “fazer o feedback sanduíche”, a embalar a crítica em elogios. Me parece artificial. Uma camada de verniz em cima de um código mal escrito. Mas aí volto àquela reunião de 40 minutos. Se alguém soubesse formular a dúvida de um jeito que não parecesse que o product owner errou, talvez a gente tivesse economizado 40 minutos de 8 pessoas. O que, na ponta do lápis, já paga a licença de um curso desses. Talvez até o de um ano.
O Retorno Imprevisto
Não gosto de pensar em tudo como ROI, mas a gente está em TI, e no fim tudo se resume a eficiência e custo-benefício. O custo de não ter essas habilidades é mensurável, só que ele se esconde em métricas erradas: sprint que atrasa, burnout, retrabalho.
O que eu vi, de gente que fez esses cursos (e não virou um coach da noite pro dia, o que é um alívio), é que o ganho não está em melhorar a comunicação no sentido corporativo da palavra. O ganho está em reduzir a fricção.
Pensa no deploy. Se a documentação é clara e o ambiente de staging é idêntico à produção, o deploy é tranquilo. O risco é baixo. Quando a documentação é ambígua, ou o ambiente está bagunçado, o risco sobe. O atrito das relações é a mesma coisa. Se eu sei formular um pedido, uma crítica, ou até uma dúvida, de um jeito que a outra pessoa entende exatamente o que eu quero, sem ruído emocional, a gente ganha tempo e, principalmente, a gente não entra em modo defensivo. A energia que a gente gastaria defendendo nossa posição volta para o trabalho.
É quase uma refatoração de processos. Tirar as variáveis que causam bugs comportamentais.
É chato admitir, mas o retorno financeiro desse investimento não vem de você se transformar em um comunicador carismático. Vem de você parar de desperdiçar tempo em mal-entendidos. Para alguém introvertido e analítico como eu, o valor do silêncio e do foco é altíssimo. Qualquer coisa que preserve isso, que corte o tempo gasto em atrito inútil, é, tecnicamente, um bom investimento.
Ainda acho a linguagem de autoajuda insuportável. Mas o resultado prático, de ver uma reunião que antes levava uma hora cair para 30 minutos, é o que me faz parar e considerar. Não é o certificado. É o silêncio produtivo que sobra no fim.
O maior problema, no fim das contas, não é a falta de soft skills, é a falta de clareza disfarçada de habilidade social. O curso, no fundo, só te força a ser mais claro sobre o que você sente e o que você precisa, e a reconhecer o mesmo no outro. E isso, ironicamente, tem um efeito colateral: as pessoas que entendem isso, mesmo sem fazer um curso, são as que parecem sempre estar um passo à frente.
E o que me incomoda é que esse passo à frente, para alguns, parece que nem precisa de esforço, sabe? Elas só observam o jogo. Olham para o caos das interações e conseguem navegar, ou, sei lá, subverter a regra sem que ninguém perceba. Como se tivessem um manual não-oficial de como mover as peças silenciosamente. Talvez esse seja o verdadeiro hack que a gente perde tempo tentando codificar.




