A luz azul do monitor é a única coisa que está acesa de verdade na sala agora. O relógio marca 18:47. Seis reuniões hoje. Não chegam a ser um recorde, mas a densidade foi alta. Principalmente porque a quarta e a quinta foram seguidas, falando sobre o mesmo issue que já está aberto há três semanas. E o pior: não avançou.
Eu estava ali, tentando processar o que foi dito no Daily das 9h30, que deveria ter 15 minutos e levou 40. O silêncio que se segue depois de um dia assim não é paz. É só exaustão. É aquele barulho surdo na cabeça que você sabe que não é bem barulho, mas que também não é silêncio de verdade. É o processador fritando depois de compilar algo gigante, só que a build nem terminou.
Sair da frente do computador não desliga o modo “social” que ficou ligado à força. É como se meu firewall mental, que normalmente me mantém private e funcionando, tivesse sido derrubado sucessivamente por pings e requisições o dia inteiro. Eu sou um profissional de TI que ganha a vida resolvendo problemas complexos, analíticos, técnicos. Meu fluxo ideal é: silêncio, foco, código, teste, deploy. O fluxo real é: silêncio, ping no Slack, reunião, interrupção, código picado, mais reunião.
O mais irônico é que as reuniões que mais consomem não são as que têm atrito. Pelo contrário. São as que tentam ser “construtivas” demais, ou que giram em torno de algo ambíguo. Por exemplo, a discussão de hoje sobre “melhorar a experiência do usuário na tela X”. O que significa “melhorar”? Para mim, significava reduzir o tempo de carregamento em 300ms. Para a Product Owner, significava mover um botão de lugar. E passamos 50 minutos tentando alinhar essas definições silenciosamente conflitantes, onde cada um falava a sua própria linguagem técnica. Eu saí de lá com uma branch mental cheia de commits que não se mesclavam.
O cansaço social para um introvertido não é a aversão às pessoas. É a sobrecarga do processamento. Cada interação, cada nuance de feedback não verbal, cada frase mal escrita no Slack que precisa ser relida e interpretada — é um overhead de CPU gigante.
Quando o Gerente perguntou se estava tudo bem com o deadline apertado, meu “Sim, estou no caminho” não foi uma mentira, mas exigiu um esforço de encenação. Tive que fazer um switch rápido: do modo “analista frio de dados” para o modo “colega engajado e tranquilo”. E esse switch é caro em termos de energia.
Eu vejo meus colegas extrovertidos, depois da última reunião, ainda trocando ideias no corredor ou rindo alto perto da máquina de café. Eles estão fazendo um reboot conversando. Eles recarregam se conectando. Eu? Eu preciso de downtime. Preciso de algo que me tire daquele estado de alerta social sem me colocar no estado de alerta técnico.
Não é Netflix. É algo mais passivo e, ao mesmo tempo, absorvente. Às vezes, refatorar um código antigo que eu escrevi, mas que já esqueci os detalhes. Não é uma tarefa do backlog, não tem pressão, não tem pull request à espera. É só a lógica pura. É como se a mente técnica estivesse limpando o cache. Tirando o lixo das interações para poder começar a rodar a lógica de novo.
Se eu for para casa agora e for direto para a próxima interação social — tipo jantar com um grupo maior —, eu chego como um serviço que não foi inicializado corretamente.
Fico lento, respondo tarde, o silêncio volta a ser interpretado como desinteresse. O que é frustrante, porque não é desinteresse. É só que o stack de processamento está cheio. É um bug silencioso na minha comunicação.
Uma caminhada ajuda. Não precisa ser um exercício vigoroso, que exige mais energia física. Só o movimento e o silêncio externo. É como se eu estivesse fazendo um deploy de mim mesmo em um ambiente que não tem regras ou dependências externas. Andar no meio das árvores, ou só na rua. Ninguém está me pedindo nada. Não há nenhum requisito para ser divertido ou produtivo.
O Ciclo Vicioso da Ambiguidade
O pior momento é o deploy da energia na próxima manhã. Eu sei que o bug das reuniões improdutivas não foi corrigido. As pessoas continuam se comunicando por issues mal definidos. E eu sei que meu silêncio, ou minhas respostas muito diretas, vão alimentar o ciclo: “O que o [Meu Nome] pensa sobre isso? Ele estava muito quieto.” E aí, mais reuniões para entender o “silêncio”.
O que me tira desse loop é o reconhecimento de que eu não sou a interface do usuário.
Eu sou o backend. Meu valor está na lógica que roda por trás, não na performance do front. Mas o dia a dia exige que eu seja os dois. E é aí que o sistema quebra. O crash de hoje veio na hora que tive que explicar, pela terceira vez, o porquê de uma solução ser tecnicamente inviável, enquanto todos na sala só ouviam “não” de novo. É um peso ter que traduzir a complexidade para quem só precisa da funcionalidade.
Não é possível refatorar um dia de trabalho. Não dá para simplesmente apagar as reuniões. Mas o que eu tenho notado é que, se eu conseguir 30 minutos de foco no caminho de casa — não resolvendo nada urgente, mas só lendo código que funciona, ou até mesmo mexendo numa side project boba —, a transição é mais suave. É um patch de estabilidade.
É curioso como a exaustão social se parece tanto com a exaustão técnica de um debug longo e frustrante. Você sabe que o problema está lá, sabe que é simples, mas o log está confuso, as variáveis estão com valores errados, e você não consegue encontrar a linha de código que vai corrigir tudo.
Essa sensação só passa quando eu me dou o direito de estar offline de verdade. E offline não é a mesma coisa que desconectado. É só estar com o meu próprio protocolo rodando. Sem handshake.
Ainda assim, o amanhã vai trazer as mesmas tasks, as mesmas interações e, provavelmente, a mesma dificuldade em dar o primeiro passo naquele código que exige pensar muito, mas que não tem interrupção. É o tipo de tarefa que você sabe que vai demorar, e que não pode ser feita em fatias de 15 minutos entre um ping e outro. O jeito de encarar é que é o problema. Aquele bug que precisa de mergulho total, não de atenção picada.
É isso. O cansaço das reuniões, de certa forma, me prepara para procrastinar justamente o que mais me daria clareza. E a ironia é que, para iniciar um mergulho desses, talvez o mais eficiente seja quebrar a barreira inicial em fatias bem menores.




